
Domingo de eleição, 6h da manhã, colégio eleitoral com a porta tomada por papel no chão. O secretário de Segurança Pública do DF, Alexandre Patury, chamou de tapete de santinhos. Eu já vi isso muitas vezes em Brasília, em Samambaia, Taguatinga, Ceilândia, Plano Piloto. A pessoa sai cedo para votar e precisa pisar em propaganda jogada de madrugada como se rua fosse lixeira de campanha.
Segundo o levantamento preliminar do TRE-DF e da SSP-DF, até 11h30 deste domingo, 4 de outubro, o DF tinha seis ocorrências relacionadas a crimes eleitorais no primeiro turno de 2026. A maioria por boca de urna. A PMDF levou os casos para a Polícia Federal. A Polícia Civil ainda registrou a prisão em flagrante de um foragido com mandado em aberto, sem ligação direta com a eleição. Pelo número frio, seis ocorrências parecem pouco. Pelo símbolo, é ruim demais.
Boca de urna não é entusiasmo democrático. É tentativa de pegar o eleitor no último metro, quando ele já saiu de casa, já pegou fila, já está com o título ou o aplicativo na mão. Pra mim, isso trata o cidadão como alguém incapaz de decidir antes de entrar na seção. Pior ainda é o santinho despejado entre 1h e 4h da madrugada. Não é militante empolgado conversando na calçada. É operação pensada para sujar a entrada dos colégios e escapar da fiscalização.
Patury disse que carros passavam em certa velocidade e arremessavam os papéis pelas janelas. Câmeras do DF 360 e dos próprios colégios registraram imagens dos veículos. As gravações foram preservadas, e a polícia vai levantar as placas com o TRE-DF. Aí eu espero objetividade. Placa, dono do veículo, quem contratou, quem imprimiu, quem pagou. Se ficar só no carro que passou, a conta morre no motorista, e a campanha finge que nunca viu aquele material na vida.

Agora vem a parte que me chama atenção como engenheiro e como pagador de imposto. A SSP-DF e o TRE-DF passaram mais de seis meses montando o plano de segurança, com apoio de 22 órgãos. O DF 360 mobilizou 14 mil câmeras com módulo eleitoral. A PMDF escalou 5 mil policiais militares exclusivamente para as eleições, pelo menos dois por colégio eleitoral, além de 1,5 mil policiais no serviço ordinário. Até 11h30, havia seis ocorrências eleitorais. Dá mais de 800 policiais exclusivos por ocorrência registrada naquele horário. Claro que policiamento também previne, não serve só para prender. Mas a pergunta sobre custo existe e deveria aparecer.
Eu não compro automaticamente a resposta de que tudo se resolve com mais câmera, mais efetivo, mais centro integrado, mais órgão na mesa e mais dinheiro. Segurança de eleição precisa existir, ainda mais no DF, com Esplanada dos Ministérios, embaixadas e órgãos federais concentrados aqui. Pelo que foi divulgado, por enquanto não havia indício de perigo na Esplanada nem nas embaixadas. Ótimo. Só que plano grande precisa vir com prestação de contas grande. Quanto custou a operação? Quantas escolas eleitorais foram cobertas? Quantos flagrantes viraram investigação de verdade? Quantos terminaram em punição?
Também não dá para jogar tudo nas costas do Estado. Campanha que manda espalhar santinho sabe o que está fazendo. Gráfica que imprime material sem controle sabe quem pagou. Candidato que amanhece com a rua cheia do próprio número não pode posar de vítima da empolgação alheia. Brasília já tem problema suficiente com sujeira, calçada ruim, boca de lobo entupida e administração regional empurrando demanda com protocolo. Em dia de eleição, a cidade vira vitrine. O mínimo é não transformar escola pública em depósito de panfleto.
Eu gosto de eleição limpa no sentido mais simples da palavra: sem intimidação, sem compra de voto, sem boca de urna e sem papel cobrindo a entrada da escola. Liberdade política não combina com bagunça organizada de madrugada. Se o TRE-DF e a SSP-DF têm imagem, placa e horário, a resposta precisa chegar em quem mandou fazer. A pergunta concreta é essa: quem pagou pelo tapete de santinhos vai responder, ou a conta fica outra vez para o gari e para o eleitor?




