
Um jovem de aproximadamente 20 anos morreu afogado no Lago Paranoá, perto da Ponte JK, na noite de segunda-feira, 12 de outubro. O Corpo de Bombeiros recebeu o chamado às 19h27. Foram três viaturas terrestres, duas aquáticas e duas viaturas de apoio do Samu. Oito mergulhadores entraram na água. A vítima foi localizada depois de cerca de 20 minutos de busca.
Depois disso veio a parte mais dura de imaginar. Doze socorristas se revezaram por cerca de 50 minutos nas manobras de reanimação cardiopulmonar. Cinquenta minutos é muita coisa. Quem já viu um atendimento desses de perto sabe que não tem romantismo nenhum. É técnica, força, tempo correndo contra o corpo e uma equipe tentando puxar uma vida de volta. Não deu. A morte foi constatada ainda no local.
Eu mergulho no Lago Paranoá. Gosto do lago, conheço um pouco da água, respeito muito aquele lugar. De fora, olhando a Ponte JK iluminada, parece cenário de cartão-postal. Dentro da água, ainda mais à noite, a conversa muda. A referência some, a profundidade engana, o cansaço chega sem pedir licença e o pânico pode aparecer em segundos. Água doce, calma na superfície, também mata.
Não dá para apontar dedo, porque ninguém informou as circunstâncias do afogamento. Não apareceu se ele nadava, se caiu, se estava com amigos, se houve bebida, se sabia nadar bem, se passou mal ou se ficou preso em alguma situação. Sem isso, qualquer certeza vira chute. E em tragédia recente, chute costuma virar injustiça. O que dá para dizer é mais simples: entrar em água aberta exige cuidado real, não aquele cuidado de frase bonita.

Piscina já tem risco. Lago tem outros riscos. Não tem borda perto. Não tem raia. Não tem azulejo no fundo. A distância que parece curta na margem fica comprida quando o braço pesa. A água pode estar mais fria do que a pessoa esperava. A noite atrapalha tudo. E tem um detalhe que muita gente subestima: saber nadar não é a mesma coisa que saber se virar em água aberta. Eu nado todo dia no SESC de Taguatinga e, mesmo assim, não trato o Paranoá como se fosse uma piscina maior.
Pra mim, a primeira regra é não ir sozinho. A segunda é combinar limite antes, não depois que alguém cansou. A terceira é não misturar bravata com água. Aquela história de atravessar só para provar alguma coisa, entrar mais longe porque o grupo entrou, nadar depois de beber ou confiar que alguém vai perceber rápido se der ruim. Pode até dar certo cem vezes. Na vez que não dá, o tempo vira inimigo. Nesse caso, os bombeiros chegaram, mobilizaram gente, barco, mergulhador, Samu, e ainda assim o desfecho foi o pior possível.
Também não compro a solução preguiçosa de transformar todo acidente em mais placa, mais proibição e mais multa. O Lago Paranoá é da cidade. Brasília precisa usar o lago, não tratar como vitrine intocável. Tem gente que pesca, rema, nada, veleja, mergulha, anda de caiaque, leva a família para a beira d’água. Isso é vida urbana boa. O poder público tem que manter acesso, resgate, orientação clara nos pontos de maior uso e resposta rápida. Mas responsabilidade individual entra junto. Liberdade sem prudência vira roleta.
O que eu queria ver, depois de uma ocorrência dessas, era informação útil circulando mais do que curiosidade mórbida. Quais pontos têm maior risco? Onde o resgate acessa mais rápido? Quais áreas são usadas por banhistas à noite? Que orientação simples os bombeiros recomendam para quem entra no lago? Não precisa inventar campanha milionária. Precisa falar o básico de forma repetida e honesta. E cada um de nós precisa ouvir antes da tragédia, não só depois.




