
O eleitor do DF foi às urnas no domingo, dia 4, e reconduziu boa parte da Câmara Legislativa que tinha dado aval para a compra do Banco Master pelo BRB. Dos 15 distritais que votaram a favor da operação, 12 se reelegeram. Onze continuam na CLDF e Thiago Manzoni foi para a Câmara dos Deputados. Na prática, 80% voltaram com mandato novo depois de uma votação que, pra mim, deveria ter pesado mais na conversa eleitoral.
Eu não digo isso porque acho que todo mundo que votou a favor tinha que ser banido da política. Não é esse o ponto. Deputado pode errar, pode defender uma tese, pode confiar em parecer técnico, pode ser convencido pelo governo. O problema é que estamos falando de uma operação bilionária com banco controlado pelo GDF. O BRB não é uma quitanda privada onde o dono arrisca o próprio dinheiro e responde sozinho pela burrada. O governo do Distrito Federal é acionista majoritário. Quando dá problema, o cheiro de prejuízo sempre chega perto do contribuinte.
Tem um dado que não dá para passar batido: antes mesmo da autorização da Câmara e antes de o Banco Central barrar a compra, o BRB já tinha injetado R$ 16,7 bilhões no banco de Daniel Vorcaro, hoje preso na Papudinha. R$ 16,7 bilhões. Escrevendo por extenso fica até pior: dezesseis bilhões e setecentos milhões de reais. Isso não é troco de gestão ousada. Isso é dinheiro em escala de política pública grande, daquelas que mexem com orçamento, risco, reputação e confiança.
Como engenheiro, eu fico incomodado quando uma decisão desse tamanho passa no debate público sem a planilha aparecer de forma clara para o cidadão comum. Qual era o risco assumido? Qual garantia havia? Quem assinou o quê? Quais cenários de perda foram apresentados aos deputados? O que o Banco Central viu que a Câmara Legislativa não viu, ou não quis ver? Se a operação era tão boa, por que acabou barrada em setembro de 2025 e, semanas depois, o Master aparece no noticiário junto com a operação Compliance Zero e a liquidação? Falta uma prestação de contas objetiva, daquelas que cabem numa tabela e não numa fala bonita de plenário.

Também chama atenção que o desempenho foi alto dos dois lados. Entre os sete que votaram contra, seis se reelegeram, 85,7%. Max Maciel, Chico Vigilante, Gabriel Magno, Ricardo Vale e Dayse Amarilio seguem na CLDF, e Fábio Félix virou deputado federal. Paula Belmonte não se elegeu porque disputou o governo e ficou em terceiro, com 8,51% dos votos válidos. Ou seja, votar contra também não parece ter sido o grande motor da eleição. O caso Master simplesmente não organizou o voto do brasiliense.
Isso diz muito sobre a nossa política local. Em Brasília, a gente reclama do buraco na rua em Samambaia, do trânsito em Taguatinga, da obra que não anda em Vicente Pires, da fila na saúde, da escola sem estrutura. Reclama com razão. Mas quando aparece uma decisão financeira gigantesca, envolvendo banco público, governo e autorização legislativa, o assunto vira uma nuvem. O eleitor sente que é distante, técnico demais, coisa de banco. Só que não é distante. Banco público quebrando a cara vira problema de todos, direto ou indireto.
Eu tenho uma desconfiança antiga com essa ideia de Estado empresário. Banco controlado por governo sempre corre o risco de virar instrumento de projeto político, vitrine de governador, moeda de poder ou aventura com dinheiro que não dói no bolso de quem decide. Banco tem que ser conservador com risco, ainda mais quando carrega o nome de Brasília e tem o GDF na estrutura. Se uma operação privada dá errado, o dono perde. Se uma operação pública dá errado, começa a romaria por explicação, socorro, investigação, auditoria, comissão e, no fim, alguém tenta diluir a conta.
A Câmara Legislativa tinha obrigação de ser mais dura, antes, durante e depois. Não basta votar e depois fingir que o Banco Central apareceu como raio em céu azul. Também não basta o eleitor tratar tudo como detalhe de bastidor. Eu acho que o caso Master deveria virar pergunta fixa para todo distrital reeleito que participou da votação: você votaria igual hoje, sabendo o que aconteceu depois? Se a resposta for sim, mostre a conta. Se for não, diga onde errou.


