
A Via S1 tomada na Esplanada chama atenção de qualquer um que mora aqui. Não é uma rua qualquer. É o eixo político do país, o lugar onde Brasília vira vitrine. Nesta terça-feira, 13 de outubro, estudantes e movimentos sociais ocuparam a Esplanada em ato pró-Lula, com concentração perto do Museu Nacional da República, caminhada, trio elétrico na região da Biblioteca Nacional e mensagens projetadas na cúpula do museu.
Segundo a PMDF, a mobilização tomou integralmente a Via S1. A concentração começou às 16h, depois de deliberação de alunos da UnB. Pelo que foi divulgado, a pauta misturou apoio à reeleição de Lula, defesa da gratuidade do ensino, manutenção de programas sociais, fortalecimento do SUS e fim da escala 6×1, assunto em tramitação no Senado. Ao anoitecer, o pessoal acendeu as luzes dos celulares, aquela imagem feita para circular.
Eu não tenho problema nenhum com protesto. Pelo contrário. A rua é do cidadão também. Quem quer defender Lula, Flávio Bolsonaro, escala 6×1, escala 5×2, universidade pública ou redução de imposto tem que poder ir para a rua, desde que respeite o direito dos outros. Brasília foi desenhada para isso também. Só acho engraçado quando o mesmo grupo que pede liberdade para ocupar a Esplanada costuma gostar muito de regular a vida alheia quando chega ao poder.
O ato teve presença de políticos aliados, como Erika Kokay, Max Maciel, Gabriel Magno e Agnelo Queiroz. Lula não esteve no evento em Brasília. A presidente da UNE, Bianca Borges, falou em mobilização do movimento estudantil depois do primeiro turno. A disputa do segundo turno contra Flávio Bolsonaro está marcada para 25 de outubro. Então vamos falar claro: foi ato político de campanha, com pauta social no pacote. Não tem nada de errado em chamar de palanque. Era palanque mesmo.
A parte da escala 6×1 merece conversa séria. Eu conheço gente que trabalha nesse regime e sei que pesa. Domingo alternado, folga curta, vida familiar embolada, cansaço acumulado. Agora, acabar por lei, de cima para baixo, sem mostrar conta, pode estourar no lugar errado. Pequeno mercado, padaria, restaurante, farmácia, posto, provedor de internet, condomínio, tudo isso funciona com escala. Se o custo sobe de uma vez, alguém paga: consumidor, trabalhador, empresário pequeno ou todo mundo junto.

Como engenheiro, minha pergunta é simples: qual é o impacto estimado? Quantas empresas usam 6×1? Quantos trabalhadores seriam afetados? Qual seria o custo de contratar mais gente para cobrir a mesma operação? Haveria redução de salário? A informalidade aumentaria? Não apareceu esse número. E sem número a discussão vira torcida. Eu posso achar a escala pesada e, ao mesmo tempo, desconfiar de uma solução que vem só com caneta, discurso e foto bonita na Esplanada.
O mesmo vale para SUS, programas sociais e universidade pública. Ana Luiza Moraes, 20 anos, moradora de Sobradinho, contou ser a primeira da família na faculdade. Isso tem força. Eu não desprezo essa história. Educação muda destino mesmo. Mas política pública não pode viver só de depoimento emocionante. Tem que dizer quanto custa, quantas pessoas atende, qual resultado entrega e quem fica de fora. Quando a conta é paga por imposto, a pergunta sobre eficiência não é maldade. É obrigação.
Também senti falta do básico: número total de participantes, custo de operação pública, impacto no trânsito, estrutura usada, autorização, quem bancou trio elétrico. Pode estar tudo certo, mas não apareceu. Em Brasília, a gente sabe como essas coisas passam pela administração, pela segurança, pelo Detran, pela PMDF. Quando é manifestação de um lado, chamam de democracia. Quando é do outro, chamam de transtorno. Pra mim, a regra tem que ser a mesma.
A Esplanada iluminada por celulares rende imagem bonita. Mas eu fico com a pergunta menos fotogênica: se a escala 6×1 acabar por lei amanhã, quem paga a transição, o patrão pequeno, o consumidor, o trabalhador com menos vaga ou o governo com mais imposto?


